Filósofos pré-socráticos é o nome pelo qual são
conhecidos aqueles filósofos da Grécia Antiga que, como sugere o nome,
antecederam a Sócrates. Essa divisão
propriamente, se dá mais devido ao objeto de sua filosofia, em relação à novidade introduzida por Platão, do que à cronologia - visto que,
temporalmente, alguns dos ditos pré-socráticos são contemporâneos a Sócrates,
ou mesmo posteriores a ele (como no caso de alguns sofistas).
Primeiramente, os pré-socráticos, também chamados naturalistas
ou filósofos da physis (natureza - entendendo-se este
termo não em seu sentido corriqueiro, mas como realidade primeira,
originária e fundamental¹, ou o que é primário, fundamental e
persistente, em oposição ao que é secundário, derivado e transitório²),
tinham como escopo especulativo o problema cosmológico, ou cosmo-ontológico, e buscavam o
princípio (ou arché) das coisas.
Posteriormente, com a questão do princípio
fundamental único entrando em crise, surge a sofística, e o foco muda do cosmo
para o homem e o problema moral.
Os principais filósofos pré-socráticos (e suas
escolas) foram:
- Escola Jônica: Tales de Mileto, Anaximenes de Mileto,
Anaximandro de
Mileto e Heráclito de Éfeso;
- Escola Itálica:
Pitágoras de Samos,
Filolau de Crotona
e Árquitas de Tarento;
- Escola Eleática:
Xenófanes, Parmênides de Eléia,
Zenão de Eléia
e Melisso de Samos.
- Escola da
Pluralidade: Empédocles de Agrigento, Anaxágoras de Clazômena, Leucipo de Abdera e Demócrito de Abdera.
Escola Jônica
Tales de Mileto (624--548 a.C.)
Atribui-se a Tales a afirmação de que "todas
as coisas estão cheias de deuses", o que talvez pode ser associado à ideia
de que o imã tem vida, porque move o ferro.
Essa afirmação representa não um retorno a concepções míticas, mas simplesmente
a ideia de que o universo é dotado de animação, de que a matéria é viva (hilozoísmo). Além disso, elaborou uma teoria para
explicar as inundações no Nilo, e atribui-se a Tales a
solução de diversos problemas geométricos (exemplo: teorema de Tales). Tales viajou por várias
regiões, inclusive o Egito, onde, segundo consta, calculou a altura de
uma pirâmide a partir da proporção entre sua própria altura e o comprimento de
sua sombra. Esse cálculo exprime o que, na geometria, até hoje se conhece como
teorema de Tales.
Tales foi um dos filósofos que acreditava que as
coisas têm por trás de si um princípio físico, material, chamado arché. Para Tales, o arché seria a água. Tales
observou que o calor necessita de água, que o morto resseca, que a natureza é
úmida, que os germens são úmidos, que os alimentos contêm seiva, e concluiu que
o princípio de tudo era a água. Com essa afirmação deduz-se que a existência
singular não possui autonomia alguma, apenas algo acidental, uma modificação. A
existência singular é passageira, modifica-se. A água é um momento no todo em
geral, um elemento.
Principais fragmentos:
- “...a
Água é o princípio de todas as coisas...”.
- “...
todas as coisas estão cheias de deuses...”.
- “...
a pedra magnética possui um poder porque move o ferro..."
Tales é apontado como um dos sete sábios da Grécia
Antiga. Além disso, foi o fundador da Escola Jônica. Considerava a água como
sendo a origem de todas as coisas, e seus seguidores, embora discordassem
quanto à “substância primordial” (que constituía a essência do universo),
concordavam com ele no que dizia respeito à existência de um “princípio
único" para essa natureza primordial. Entre os principais discípulos de
Tales de Mileto merecem destaque: Anaxímenes que dizia ser o "ar" a
substância primária; e Anaximandro, para quem os mundos eram infinitos em sua
perpétua inter-relação.
Anaximandro de Mileto
(611-547 a.C.)
Anaximandro viveu em Mileto no século VI a.C.. Foi
discípulo e sucessor de Tales. Anaximandro achava que nosso mundo seria apenas
um entre uma infinidade de mundos que evoluiriam e se dissolveriam em algo que
ele chamou de ilimitado ou infinito. Não é fácil explicar o que ele queria
dizer com isso, mas parece claro que Anaximandro não estava pensando em uma
substância conhecida, tal como Tales concebeu. Talvez queria dizer que a
substância que gera todas as coisas deveria ser algo diferente das coisas
criadas. Uma vez que todas as coisas criadas são limitadas, aquilo que vem
antes ou depois delas teria de ser ilimitado.
É evidente que esse elemento básico não poderia ser
algo tão comum como a água.
Anaximandro recusa-se a ver a origem do real em um
elemento particular; todas as coisas são limitadas, e o limitado não pode ser,
sem injustiça, a origem das coisas. Do ilimitado surgem inúmeros mundos, e
estabelece-se a multiplicidade; a gênese das coisas a partir do ilimitado é
explicada através da separação dos contrários em conseqüência do movimento
eterno. Para Anaximandro o princípio das coisas - o arché - não era algo
visível; era uma substância etérea, infinita. Chamou a essa substância de
apeíron (indeterminado, infinito). O apeíron seria uma “massa geradora” dos
seres, contendo em si todos os elementos contrários.
Anaximandro tinha um argumento contra Tales: o ar é
frio, a água é úmida, e o fogo é quente, e essas coisas são antagônicas entre
si, portanto o elemento primordial não poderia ser um dos elementos visíveis,
teria que ser um elemento neutro, que está presente em tudo, mas está
invisível.
Esse filósofo foi o iniciador da astronomia grega.
Foi o primeiro a formular o conceito de uma lei universal presidindo o processo
cósmico totalmente.
De acordo com ele para que o vir-a-ser não cesse, o
ser originário tem de ser indeterminado. Estando, assim, acima do vir-a-ser e
garantindo, por isso, a eternidade e o curso do vir-a-ser.
O seu fragmento refere-se a uma unidade primordial,
da qual nascem todas as coisas e à qual retornam todas as coisas.
Principais fragmentos:
- “...
o ilimitado é eterno...”
- “...
o ilimitado é imortal e indissolúvel...”
Anaxímenes de Mileto
(588-524 a.C.)
O terceiro filósofo de Mileto foi Anaxímenes. Ele
pensava que a origem de todas as coisas teria de ser o ar ou o vapor.
Anaxímenes conhecia, claro, a teoria da água de Tales. Mas de onde vem a água?
Anaxímenes acreditava que a água seria ar condensado. Acreditava também que o
fogo seria ar rarefeito. De acordo com Anaxímenes, por conseguinte, o ar ("pneuma")
constituiria a origem da terra, da água e do fogo.
- Conclusão:
Os três filósofos milésios acreditavam na
existência de uma substância básica única, que seria a origem de todas as
coisas. No entanto, isso deixava sem solução o problema da mudança. Como
poderia uma substância se transformar repentinamente em outra coisa? A partir
de cerca de 500 a.C., quem se interessou por essa questão foi um grupo de
filósofos da colônia grega de Eléia, no sul da Itália, por isso conhecidos como
eleatas.
O mais importante dos filósofos eleatas foi
Parmênides (c. 530-460 a.C.). “Nada nasce do nada e nada do que existe se
transforma em nada”. Com isso quis dizer que “tudo o que existe sempre
existiu”.
Sobre as transformações que se pode observar na
natureza: ”Achava que não seriam mudanças reais”. De acordo com ele, nenhum
objeto poderia se transformar em algo diferente do que era.
Início do racionalismo
Percebia, com os sentidos, que as coisas mudam. Mas
sua razão lhe dizia que é logicamente impossível que uma coisa se tornasse
diferente e, apesar disso, permanecesse de algum modo a mesma. Quando se viu
forçado a escolher entre confiar nos sentidos ou na razão, escolheu a razão.
Essa inabalável crença na razão humana recebeu o nome de racionalismo. Um
racionalista é alguém que acredita que a razão humana é a fonte primária de
nosso conhecimento do mundo.
Um contemporâneo de Parmênides foi Heráclito (c.
540-476 a.C.), que era de Éfeso, na Ásia Menor. Heráclito propunha que a
matéria básica do Universo seria o fogo. Pensava também que a mudança
constante, ou o fluxo, seria a característica mais elementar da Natureza.
Podemos talvez dizer que Heráclito acreditava mais do que Parmênides naquilo
que percebia. "Tudo flui", disse Heráclito. "Tudo está em fluxo
e movimento constante, nada permanece". Por conseguinte, “não entramos
duas vezes no mesmo rio. Quando entro no rio pela segunda vez, nem eu nem o rio
somos os mesmos".
Problema: Parmênides e Heráclito defendiam dois
pontos principais diametralmente opostos.
Parmênides dizia:
- a)
nada muda,
- b)
não se deve confiar em nossas percepções sensoriais.
Heráclito, por outro lado, dizia:
- a)
tudo muda (“todas as coisas fluem”)
- b)
podemos confiar em nossas percepções sensoriais.
Quem estava certo? Coube ao siciliano Empédocles
(c. 490-430 a.C.) indicar a saída do labirinto.
Como estudioso da physis, Heráclito acreditava que
o fogo era a origem das coisas naturais.
Ele achava que os dois estavam certos:
- 1. A
água não poderia, evidentemente, transformar um peixe em uma borboleta.
Com efeito, a água não pode mudar. Água pura irá continuar sendo água
pura. Por isso, Parmênides estava certo ao sustentar que “nada muda”.
- 2.
Mas, ao mesmo tempo, Heráclito também estava certo em achar que devemos
confiar em nossos sentidos. Devemos acreditar naquilo o que precisava ser
rejeitado era a ideia de uma substância básica única. Nem a água nem o ar
sozinhos podem se transformar em uma roseira ou uma borboleta. Não é possível
que a fonte da Natureza seja um único “elemento”. Empédocles acreditava
que a Natureza consistiria em quatro elementos, ou “raízes”, como os
denominou. Essas quatro raízes seriam a terra, o ar, o fogo e a água.
A - Como ou por que acontecem as transformações que
observamos na natureza?
- 1. Todas
as coisas seriam misturas de terra, ar, fogo e água, mas em proporções
variadas. Assim as diferentes coisas que existem seriam os processos
naturais gerados pela aproximação e à separação desses quatro elementos.
- 2.
Quando uma flor ou um animal morrem, disse Empédocles, os quatro elementos
voltam a se separar. Podemos registrar essas mudanças a olho nu. Mas a
terra e o ar, o fogo e a água permaneceriam eternos, “intocados” por todos
os componentes dos quais fazem parte. Dessa maneira, não é correto dizer
que todas as coisas mudam.
- 3.
Basicamente, nada mudaria. O que ocorre é que os quatro elementos se
combinariam e se separariam - para se combinarem de novo, em um ciclo. B -
O que faria esses elementos se combinarem de tal modo que fizessem surgir
uma nova vida? E o que faria a “mistura”, digamos, de uma flor se
dissolver de novo? Empédocles pensava que haveria duas forças diferentes
atuando na Natureza. Ele as chamou de amor e discórdia. Amor uniria as
coisas, a discórdia as separaria.
Curiosamente, os quatro elementos correspondem, um
a um, aos quatro estados da natureza: terra (sólido), água (líquido), ar
(gasoso) e fogo (plasma).
Para Demócrito, as transformações que se podem
observar na natureza não significavam que algo realmente se transformava. Ele
acreditava que todas as coisas eram formadas por uma infinidade de
"pedrinhas minúsculas, invisíveis, cada uma delas sendo eterna, imutável e
indivisível". A estas unidades mínimas deu o nome de ÁTOMOS. Átomo
significa indivisível, cada coisa que existe é formada por uma infinidade
dessas unidades indivisíveis. "Isto porque se os átomos também fossem
passíveis de desintegração e pudessem ser divididas em unidades ainda menores,
a natureza acabaria por diluir-se totalmente". Exemplo: se um corpo – de
uma árvore ou animal, morre e se decompõe, seus átomos se espalham e podem ser
reaproveitados para dar origem a outros corpos.
Originário da Jônia, viveu no sul da Itália. Precursor do pensamento dos Eleatas. Para
ele a Physis era a terra. Escreveu em estilo poético. Defendeu a ideia de um
Deus único. Tinha influência Pitagórica.
Xenófanes, de Colofon -(século IV a. C) atribui-se
a ele a fundação da escola de Eléia. Levou vida errante, passando parte dela na
Sicília, tendo fugido de sua terra natal por causa da invasão dos medas. Alguns
duvidam de sua ligação com Eléia. Em seus fragmentos defendeu um deus único,
supremo, que não tinha a forma de homem. Realçou isso afirmando que os homens
atribuem aos deuses características semelhantes a eles mesmos, que mudam de
acordo com o povo. Se os animais tivessem mãos para realizarem obras,
colocariam nos deuses suas características. Restaram de suas obras alguns
fragmentos, sendo que uns satíricos. Foi contra a grande influência de Hesíodo
e Homero (historiador e escritor gregos). Zombou dos atletas, preferindo a sua
sabedoria aos feitos atléticos, que não enchiam celeiros. O deus segundo
Xenófanes está implantado em todas as coisas, o todo é um, e é supra-sensível,
imutável, sem começo, meio ou fim. Teve como discípulo Parmênides.
Segundo Hegel os gregos tinham apenas o mundo
sensível diante de si, e não encontravam satisfação nisso. Assim jogavam tudo
fora como sendo não verdadeiro, e chegavam ao pensamento puro. O infinito,
Deus, é um só, pois se fosse dois haveria a finitude. Hegel identifica a
dialética* em Xenófanes, uma consciência da essência, pura, e outra de opinião,
uma sobrepondo a outra, indo contra a mitologia grega.
Escolas Italianas
Pitágoras de Samos
Representada pela mestre de Pitágoras, Temistocléia
e seus seguidores: Teano, Damo,
Arquitas de Tarento,
Arignote, Equécrates, Melissa, Myia,
Fíntis de Esparta,
Filolau de Crotona.
A maioria dos discípulos desenvolvia conhecimentos em matemática.
Defendia uma doutrina com ênfase na metafísica e na filosofia dos números e da
música como essência de tudo que existe e também da própria Divindade. O ponto central da doutrina religiosa
é a crença na transmigração das
almas ou metempsicose.
Pitágoras, o fundador da Escola Pitagórica,
nasceu em Samos pelos anos 571-70 a.C. Em 532-31 foi para a
Itália, na Magna Grécia, e fundou em Crotona, colônia grega, uma associação
metafísico-científico-ético-política, que foi o centro de irradiação da escola
e encontrou partidários entre os gregos da Itália meridional e da Sicília. Pitágoras aspirava - e também conseguiu
- a fazer com que a educação ética da escola se ampliasse e se tornasse reforma
política; isto, porém, levantou oposições contra ele e foi constrangido a
deixar Crotona, mudando-se para Metaponto, aí morrendo
provavelmente em 497-96 a.C. Um dos principais herdeiros foi o filósofo grego Platão.
Escola Eleática
Representada principalmente por:
- Alcmeão de Crotona
Filho de Peirithoos, é um dos principais discípulos de Pitágoras. Foi
jovem quando seu mestre já era avançado em anos. Seu interesse principal
dirigia-se á Medicina, de que resultou a sua doutrina sobre o problema dos
sentidos e da percepção. Alcmeão disse que só os deuses tem um
conhecimento certo, aos homens só presumir é permitido.
- Parmênides de Eléia
O acme de sua existência foi por volta de 500 a.C. Foi ele o primeiro a
demonstrar a esfericidade da Terra e sua posição no centro do mundo.
Segundo ele, existem dois elementos: o fogo e a terra. O primeiro elemento
é criador, o segundo é matéria. Os homens nasceram da terra. Trazem em si
o calor e o frio, que entram na composição de todas as coisas. O espírito
e a alma são para ele uma única e a mesma coisa. Ha dois tipos de
filosofia, uma se refere a verdade e a outra a opinião.
- Zenão
- Melisso
Segunda Fase do pensamento
pré-socrático
Escola atomista
Leucipo e Demócrito de Abdera
são os maiores expoentes.
Doutrina das Homeomerias.
Anaxágoras de Clazômenas (Clazômenas, c. 500 a.C. -
Lâmpsaco, 428 a.C.), filósofo grego do período
pré-socrático. Nascido em Clazômenas,
na Jônia, fundou a primeira escola filosófica de
Atenas, contribuindo para a expansão do pensamento filosófico e científico que
era desenvolvido nas cidades gregas da Ásia. Era protegido de Péricles que também era seu discípulo. Em 431
a.C. foi acusado de impiedade e partiu para Lâmpsaco, uma colônia de Mileto, também na Jônia, e lá fundou uma nova escola.
Escreveu um tratado aparentemente pequeno
intitulado "Sobre a natureza", em que tentava conciliar a existência
do múltiplo frente à crítica de Parmênides de Eléia
e sua escola. Afirmava que o universo se constitui pela ação do Nous
(νοῦς), conceito que geralmente é traduzido por espírito, mente
ou inteligência. Segundo o filósofo, o Nous atua sobre uma
mistura inicial formada de sementes que contém uma porção de cada coisa. Assim,
o Nous, que é ilimitado, autônomo e não misturado com nada mais, age
sobre estas sementes ordenando-as e constituindo o mundo sensível. Os
fragmentos preservados versam sobre: cosmologia, biologia e percepção. Esta noção de causa
inteligente, que estabelece uma finalidade na evolução
universal, irá repercutir em filósofos posteriores, como Platão e Aristóteles.
Anaxágoras aparece ao lado de Pitágoras no quadro da "Escola de
Atenas" do pintor Rafael, segurando a
tableta com o número triangular 1+2+3+4, a sagrada tetraktys dos Pitagóricos.
