sábado, 23 de março de 2013

FILOSOFIA - QUEM É DEUS?


Estou seguro, Senhor, de que te amo; disso não tenho dúvidas. Tocaste-me o coração com a tua palavra, e comecei a amar-te. O céu, a terra e tudo que neles existe dizem-me por toda parte que te ame, e não cessam de repeti-lo a todos os homens, “de modo que eles não tem desculpa”.[1] Terás compaixão mais profunda de quem já foste misericordioso.[2] De outra forma, o céu e a terra pronunciariam teus louvores a surdos.

 
            Mas, que amo eu quando te amo? Não uma beleza corporal ou uma graça transitória, nem o esplendor da luz, tão cara a meus olhos, nem as doces melodias de variadas cantilenas, nem o suave odor das flores, dos ungüentos, dos aromas, nem o maná ou o mel, nem os membros tão suscetíveis às carícias carnais. Nada disso eu amo, quando amo o meu Deus. E contudo, amo a luz, a voz, o perfume, o alimento e o abraço, quando amo o meu Deus: a luz, a voz, o odor, o alimento, o abraço do homem interior que habita em mim, onde para a minha alma brilha uma luz que nenhum espaço contém, onde ressoa uma voz que o tempo não destrói, de onde exala um perfume que o vento não dissipa, onde se saboreia uma comida que o apetite não diminui, onde se estabelece um contato que a sociedade não desfaz. Eis o que amo quando amo o meu Deus.

 
            E o que é isso? Perguntei à terra, e esta me respondeu: “Não sou eu”. E tudo o que nela existe me respondeu a mesma coisa. Interroguei o mar, os abismos e os seres vivos,[3] e todos me responderam: “Não somos o teu Deus; busca-o acima de nós”. Perguntei aos ventos que sopram, e toda a atmosfera com seus habitantes me responderam: “Anaxímenes está enganado;[4] não somos o teu Deus”. Interroguei o céu, o sol, a lua e as estrelas: “Nós também não somos o Deus que procuras”. Pedi a todos os seres que me rodeiam o corpo: “Falai-me do meu Deus, já que não sois o meu Deus; dizei-me ao menos alguma coisa sobre ele”. E exclamaram em alta voz: “Foi ele quem nos criou”.[5] Para interrogá-los, eu os contemplava, e sua resposta era a sua beleza. Dirigi-me então a mim mesmo, e me perguntei: “E tu, quem és”? E respondi: “Um homem”. Tenho à minha disposição um corpo e uma alma, o primeiro é exterior e a outra é interior. A qual dos dois deverei perguntar pelo meu Deus? Através do corpo já o procurei, desde a terra até o céu, até onde pude enviar, como mensageiros, os raios do meu olhar. Mas a parte interior – a alma – é superior ao corpo. A ela, como a quem preside e julga, é que todos os mensageiros do corpo dirigiam as respostas do céu, da terra e de tudo o que neles existe: “Não somos Deus”. E ainda: “Foi ele quem nos criou”. O homem interior conheceu tais fatos graças ao homem exterior. Eu os conheci, eu, o espírito, graças aos sentidos do corpo. Perguntei pelo meu Deus a toda a imensidão do universo, e esta me respondeu: “Eu não sou Deus, mas foi ele quem me fez”.

 
            Mas essa beleza acaso não se manifesta claramente a todos os que são dotados de sentidos perfeitos? Por que não fala a todos a mesma linguagem? Os animais, sejam grandes ou pequenos, a vêem, mas não podem fazer-lhe perguntas. Não lhes foi concedida a razão, capaz de julgar as mensagens dos sentidos. Aos homens, porém, é dado indagar, para perceberem “o Deus invisível através da compreensão das coisas criadas”.[6] Mas, escravizando-se a estas pela paixão, já não as podem julgar. E estas só respondem aos que podem julgar-lhes as respostas: não mudam de linguagem, isto é, de aparência, se um a vê simplesmente enquanto outro a vê e a interroga. Não aparecem diversamente a um e a outro. Mas, aparecendo a um e a outro do mesmo modo, são mudas para o primeiro e só respondem ao segundo. Ou antes, falam a todos, mas somente as entendem aqueles que comparam a voz vinda do exterior com a verdade interior. De fato, a verdade me diz: “O teu Deus não é a terra, nem o céu, nem qualquer outro ser corporal”. É isso que a natureza das coisas afirma, e todos podem ver, pois a matéria é menor na parte que no todo. Tu, alma, digo-te que és mais importante que o corpo, sem dúvida, pois és tu que lhe dás a vida, e nenhum corpo pode fazer o mesmo a outro corpo. Mas o teu Deus é também a vida da tua vida.

 
 
Santo Agostinho. Confissões. Ed. Paulus.



[1] Rm 1,20.
[2] Cf. Rm 9, 15.
[3] Gn 1,20.
[4] Anaxímenes foi o filósofo grego do século VI a.C. Para ele,o ar é o princípio gerador de tudo.
[5] Sl 99,3.
[6] Rm 1,20.

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